... tornei-me incapaz quanto à crença sobre a existência de experiências finitas ou engessadas, pois mesmo as passadas voltam, levando-me a pensar que não as quitei em tempo oportuno. O mundo é um círculo, a vida ciclos. Desenvolver o desapego é uma das únicas possibilidades de renovar vivências, amores e desvendar cantos não explorados no meu SER mais inconsciente. Não quero reter pessoas, ideias ou feitos. Finalmente percebo que tudo o que não representa meu EU, corresponde a uma parcela do que de mais importante me conduz a mim mesma e age conforme a minha necessidade e ao meu amadurecimento naquele momento. Pessoas chegam e vão, deixando marcas tão profundas, mas não suficientes para considerá-las responsáveis pelo meu sucesso ou derrota, onde, nada mais sobrará para continuar a caminhada. Quero o fracasso, quero as vitórias e ainda assim, serei capaz de reconhecer a função de cada um que cruzar minha estrada. Muitos têm ficado, outros cumprem com suas missões junto a mim e partem. Gratidão é uma constante em minha existência, e o amor... ahhhhhhhh o amor! Esse é para os que efetivamente constroem templos dentro de mim...
Nem era tão bonita assim. Sua educação, delicadeza e inteligência eram seu passaporte para conquistas que alimentavam a certeza quanto a sua infalibilidade. Com frequência sentia-se ameaçada por pessoas que desfrutavam de sua convivência há algum tempo e atribuía tal sensação à inveja que delas emanava. Nesses momentos, tornava-se agressiva e irônica, destilando em palavras e gestos sutis e velados toda sua ira, de forma a gerar no outro sentimentos de medo, a inibir a possibilidade de um entendimento.
Sua incapacidade de perceber-se suscetível aos erros fazia com que sempre, em situações como esta, projetasse toda a culpa na outra pessoa, eximindo-se de qualquer responsabilidade e deixando como alternativa de reparação, aceitar seus argumentos e submeter-se a eles. Com o tempo, a repetição dessa dinâmica neutralizava as forças e percepções do outro, destruindo gradativamente a auto estima daqueles que junto a ela permaneciam, apesar de toda a sua insensibilidade...
A perversidade reside em cada um de nós e se manifesta por diversos motivos. É ela que, por exemplo, em alguns momentos aciona mecanismos de defesa em situações nas quais sentimos nossa integridade ameaçada. A raiva por nos percebermos abusados e o desejo de vingança são alguns dos ingredientes que podem nos impulsionar à expressão da maldade que trazemos internamente, revelando, em seguida, sintomas de culpa em decorrência de ações por ela mobilizadas. E por reconhecermos essa faculdade inerente à natureza humana, que surge eventualmente, nos assombramos quando tomamos conhecimento de pessoas que fazem dessa dinâmica perversa sua forma de ser em tempo integral.
Boa parte das pessoas, senão todas, já conviveu ou convive com um perverso. Eles estão em toda parte, nas famílias (relações conjugais e parentais), nas escolas (entre amigos), nas empresas (colegas de trabalho e chefias) e no âmbito social. Extremamente sedutores, utilizam da inteligência e da perspicácia no que concerne às limitações do outro para iniciarem um processo definido como enredamento, por intermédio do qual sondam as fragilidades da vítima, iniciam um trabalho que favorece uma cegueira no outro quanto aos riscos que estão por vir na relação em desenvolvimento.
Os perversos narcísicos, assim definidos pelo DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV), não enxergam o outro como pessoa, mas como objeto que existe para satisfazê-los, projetando nele conflitos íntimos que não podem assumir pela sua incapacidade de se perceberem falíveis. Megalomaníacos, possuem um senso grandioso sobre a própria importância e acreditam ser especiais, o que reforça a necessidade de serem constantemente admirados, a manifestação de comportamentos arrogantes e a inexistência de empatia.
Conviver com um perverso gera sentimentos infindáveis de culpa, inadequação, impotência e abandono, além de quadros severos de ansiedade e de depressão. É às custas de uma grande tensão interior que a vítima consegue acalmar seu algoz nas ocasiões em que se apresenta nervoso, que mascara o descontentamento com a relação e que se esforça para não reagir. O organismo vive em constante estado de alerta, liberando hormônios que depreciam o sistema imunológico e modificam os neurotransmissores cerebrais.
A longo prazo, a persistência de taxas hormonais elevadas gera distúrbios que se instalam cronicamente como: palpitações, sensações de opressão, falta de ar, fadiga, perturbações do sono e digestivas, nervosismo, irritabilidade, dores de cabeça e abdominais, úlceras de estômago, doenças cardiovasculares e de pele, perda ou ganho de peso e, ainda, enfraquecimento.
As estratégias básicas que norteiam um comportamento perverso, passada a fase do enredamento, são padrões agressivos nos quais pode-se notar o uso dos recursos da mentira, da linguagem paradoxal, da desqualificação, da recusa ao diálogo, todas elas como forma de confundir a vítima sobre a mensagem dada pelo agressor e a recebida por aquela, o que favorece a manutenção da manipulação e do controle na relação.
Como irritar um perverso? Mostre que percebe seu jogo. É tentador imaginar-se virando o tabuleiro, deixando fluir a própria natureza perversa, mas é importante saber que normalmente o perverso não perde uma guerra. Travar uma batalha psíquica com alguém com essa natureza promove um desgaste físico e emocional tão intenso quanto manter-se inerte. O recomendável é evitar a sedução do jogo e proteger-se, buscando ajuda psicológica para que seja possível descobrir sentimentos e necessidades que promovem a vinculação a ele e o fortalecimento para libertar-se da relação ou o aprendizado necessário para lidar com ela. E neste campo, não há espaço para ilusões! Um perverso dificilmente muda seu padrão comportamental!
Marie-France elucida que, diferentemente de um masoquista, a vítima de um perverso não aprecia o sofrimento, mas simplesmente não consegue se libertar sozinha. Ela faz menção aos esclarecimentos de Alice Miller sobre os danos de uma educação repressora, como forma de retirar da criança defesas naturais vinculadas à expressão de desagrado ou de indignação por atitudes dos adultos. A autora ainda revela que a longo prazo, essa conduta dos pais mina a autenticidade e atrofia a auto estima, criando futuros adultos incapazes de dizer não e, portanto, mais vulneráveis às ações perversas.
Quando o insucesso de uma relação entre um perverso e uma vítima começa a ficar explícito, a sociedade e a família, de um modo geral, creditam à vítima a incapacidade de cessar o tormento – “Ela não sai desse casamento porque gosta de sofrer!”. Esse julgamento baseado em percepções superficiais também se dá em função da violência infligida ser de natureza “limpa”, não deixando vestígios. Nesse momento, o perverso se utiliza de outra arma, a vitimização. E não poupará esforços e inteligência para reverter o quadro, fazendo com que a vítima, próxima de seu limite, torne-se agressiva, pareça ingrata e até mesmo enlouqueça. Para aqueles que desconhecem a verdade entre quatro paredes, a versão explícita é a verdadeira.
Não raro, chegam aos consultórios de Psicologia, mulheres casadas e profissionais que sofrem ou sofreram a perseguição de um perverso. Quando buscam o tratamento psicológico e/ou psiquiátrico encontram-se em estados depressivos severos com quadros de esgotamento intenso ligado a um excesso de estresse. Sentem-se exauridos, sem energia e apresentam dificuldade para pensar ou se concentrar, mesmo em atividades corriqueiras. Alguns apresentam ideias suicidas e outros tentam efetivamente o ato extremo, o que para o perverso reforça a imagem de impotência e incompetência da vítima, facilitando com que comprove o estado perturbado e louco do outro e se fortaleça como algoz, todo-poderoso, com rigor moral e sabedoria.
Ana Virgínia Almeida Queiroz
Psicóloga Clínica
CRP: 01-7250
Suporte Bibliográfico:
- Livre de ansiedade – Robert L. Leahy / 2011;
- A parte obscura de nós mesmos - Elisabeth Roudinesco / 2007
- Perversão - As engrenagens da violência sexual infantojuvenil - Cassandra Pereira França (org.) / 2010
- Mentes perigosas - O psicopata mora ao lado - Ana Beatriz Barbosa Silva / 2008
- Assédio Moral - A violência perversa no cotidiano - Marie-France Hirigoyen / 2011
- O drama da criança bem dotada - Alice Miller / 1997
E eu já desapaixonei e reapaixonei milhares de vezes pelo mesmo homem. Casamento é menos difícil quando encaramos suas oscilações como algo natural e de peito aberto. Se estamos em constante processo de transformação enquanto pessoas, pretender que o sentimento inicial de uma relação permaneça o mesmo é ilusão que certamente provocará dor.
E não obstante as irritações, as competições, as farpas sutis, sempre há espaço para o olhar terno, o silêncio no momento exato e a palavra acolhedora.
Casamento é construído sobre papéis. Sim, mas não apenas naqueles que assinamos no ato da cerimônia civil ou religiosa. Falo dos de amantes, de amigos, de irmãos, de pais (quando existem filhos), mas principalmente de seres humanos.
Casamento é legal! Eu acho! Dá trabalho. Muito trabalho! Quando o resultado disso gera mais sucesso do que frustração é sinal de que as coisas estão andando de forma alinhada, em comunhão.
"Eu amo meu marido!". Romântica? Muito além disso! Amo porque ele atura meus devaneios, minhas ausências, minhas rebeldias, minhas teimosias. Amo pelo ser humano que é. Íntegro, consciente, lúcido, mau humorado (às vezes) e disposto a melhorar sempre, fazendo valer à pena investir meu tempo e meu afeto.
Amo porque me ensinou e também aprendeu que apesar de casados somos livres. Que estar junto toda hora, fazendo tudo junto, atualizando sobre qualquer coisa que aconteça, não é exatamente sintoma de afeto, pode ser controle. Deixar o outro livre para falar ou calar é um ingrediente gostoso de sentir ao degustar o prato principal.
Talvez exatamente por isso ainda estejamos juntos. Nos aceitamos e nos esforçamos para não tomar caminhos tão divergentes, pois embora sejamos duas individualidades, há uma espinha dorsal na relação que não pode ser rompida. O maior desafio não é manter a mesma paixão. É flexibilizar a coluna vertebral do casamento, como em uma dança por vezes sensual, por vezes agressiva, mas preparada para a mudança de vibrações.
E ao descobrir novas nuances no cônjuge, oriundas das experiências ao longo dos anos, se surpreender com o SER que vai surgindo, permitindo que ele conquiste novamente e sempre, abrindo novos ciclos sem previsão para o fim.
Eu casaria novamente com o mesmo homem, digo, com o mesmo-diferente, mutante a cada reviravolta da vida. Maduro... ahhhhhh... Agora que eu casava mesmo!
"MAPAternagem em Drágeas" tem como objetivo favorecer reflexões sobre condutas favoráveis à formação psicoafetiva dos nossos filhos, bem como avaliar sobre os efeitos da educação que recebemos quando crianças e em como isso se reflete em nossa vida atualmente.
1. Aceitar os filhos como são, evitando rótulos, favorece que a autenticidade os oriente nas relações com outras pessoas e consigo mesmos.
2. Estar atento (a) para a possibilidade de projetar em teus filhos os anseios e frustrações que te pertencem, evita que designe a responsabilidade de te fazerem plenamente feliz com as opções que apresenta a eles. Busca, por si só a autorrealização, libertando-os para serem eles mesmos.
3. Viver tua vida, tornando-se inteiro (a), auxilia a construção da integralidade nas crianças, nos momentos definidores do desenvolvimento psicoafetivo.
4. Preza pela união dos filhos e os oriente em momentos de conflito, evitando suprir tuas necessidades de importância e reconhecimento tirando proveito da competição entre eles.
5. Exercite a flexibilidade e trabalhe o medo de perder o controle sobre os filhos, pois este de nada vale nas relações afetivas, sufocando o amor que é o verdadeiro agente transformador.
6. Deixe teus filhos livres para fazerem as escolhas possíveis, observando as etapas de desenvolvimento e orientando sobre as conseqüências.
7. Evite o julgamento e a repressão na manifestação de sentimentos menos nobres como a raiva, a inveja, o ciúme ou o medo, na pretensão de favorecer mudanças no comportamento das crianças, muitas vezes baseadas na barganha pela manutenção do teu afeto ou no temor da punição divina.
8. Ensina teus filhos que não há problema no vivenciar sentimentos negativos e que os mesmos podem resolver-se por meio do reconhecimento de sua existência e de manifestações proativas.
9. Busca a coerência dentro de ti mesmo (a) entre os pensamentos, palavras e atitudes, promovendo referenciais sólidos à prole.
10. Reconhece-te humano (a), admitindo tuas fragilidades em benefício da relação com os filhos, sem, contudo, abdicar do manancial educador dessa oportunidade.
11. Percebe e elogia tudo aquilo que teus filhos fizerem em benefício de si mesmos e dos outros, principalmente no que partir deles, pontuando os bons resultados da iniciativa.
12. Observa a forma como teus filhos internalizam os fatos e as relações e os fortaleces para que encontrem a autorrealização, desenvolvendo paulatinamente a independência afetiva de forma a perceberem o poder que possuem para fazerem-se felizes.
13. Dialoga sobre tudo o que for possível com teus filhos de forma leve e instrutiva.
14. Acolhe teus filhos nos momentos de dor, sem julgamentos, dando crédito aos seus relatos de forma a evitar a sensação de abandono, antes mesmo de averiguar os fatos.
15. Oferece um prazo para que resolvam sozinhos os desafios, sendo agente facilitador no tocante ao reconhecimento de suas potencialidades para lidar com os problemas. Esteja por perto para fortalecer e auxiliar na criação, por eles mesmos, de estratégias.
16. Esteja atento (a) quanto aos próprios sentimentos. Filhos, muitas vezes, agem por ressonância e não devemos cobrar atitudes deles que nós mesmas não somos capazes de executar.
17. Não habitue teu filho a duvidar de si mesmo, desconfirmando suas percepções ou porque tem medo ou porque não quer perder a autoridade.
Sentado no sofá, observava brandamente as crianças enquanto corriam e gargalhavam pela casa. Deslocava-se como névoa, permeando o quadro à sua frente, envolvendo-se de forma peculiar nas brincadeiras infantis, revolvendo sensações antigas, ricas lembranças do seu tempo de menino. Vez ou outra voltava-se a orientar sobre os perigos que envolviam as ações dos filhos e novamente permitia-se névoa, aspirando e sendo aspirado pelo colorido da dança lúdica da prole...
Ao me deparar com essa imagem, parei para refletir sobre as inúmeras limitações que a maioria dos homens apresenta em situações como a descrita acima. A preocupação constante no que se refere ao provimento das necessidades materiais da família reforça o resultado de uma existência sendo educados de forma a se distanciarem dos próprios sentimentos e consequentemente a dificuldade de se libertarem desse modelo e se envolverem de forma mais efetiva com os filhos.
A ameaça de perda do controle sobre as próprias emoções sugere diversos modelos paternos. Homens que se mantem no pedestal, que somem no mundo, que se ausentam frente ao computador ou à televisão e que massacram a família com exigências e cobranças infindáveis quanto ao perfeito funcionamento da dinâmica em questão. São homens que, inseridos em uma cultura machista, encontram no isolamento e nas compulsões a “cura” para suas dores infantis – as inúmeras necessidades emocionais não atendidas.
Frutos de uma educação exigente no que tange à demonstração de força e controle sobre o próprio sofrimento, integram um contingente de seres para os quais honra e respeito são os comandos que justificam a negação do que de mais autêntico existe em uma criança; e os meninos, nesse caso, são os que mais sofreram e, ainda, em muitas famílias, sofrem, não obstante a grande transformação social experimentadas nas últimas décadas relativamente ao tema. São homens, agressivos, depressivos, perversos, pedófilos, desrespeitados em sua inocência e essência, colaboradores da multigeracionalidade da ausência de amor em suas diversas formas de expressão, em razão primeira, talvez única e fatal, da não observância pelos próprios pais da sua individualidade quando criança.
E nesse turbilhão de conexões, ali, diante dos meus olhos, um homem, assim como muitos outros, representava a mudança de padrão, abstraindo vários dos obstáculos que precisa transpor. São os que trocam fraldas, dão banho, preparam o alimento, colocam para arrotar, levam para passear, rolam no chão, gargalham, participam das tarefas escolares e que, acima de tudo, buscam reconhecer dentro de si as limitações a um melhor envolver e conviver com a família, mesmo que isso ocorra de forma inconsciente.
São os que conseguem, antes ou depois de uma ação explosiva, refletir sobre as motivações que os levaram a agir descompensadamente, os que pedem desculpas ou ajuda e que mostram fragilidade sem o receio de serem rotulados ou discriminados pelos próprios filhos. Que ocupam, mesmo sem anuência da esposa, seu espaço, que não sucumbem aos apelos do processo educativo patriarcal a que foram submetidos e que transmutam o sistema de crenças que gira em torno deles, transformando-se, reinventando-se, recriando-se sempre.
Participar da dimensão emocional da família, sobretudo da vida de um filho, indica coragem para lidar com a própria história, que os levará ao reencontro, muitas vezes, com uma criança ferida, amedrontada e oprimida. Transpor a tendência repetitiva de normas culturais, definidoras do perfil masculino, permite que homens, como o descrito acima, vivenciem momentos plenos de encontro consigo e com os filhos, envolvendo-se não apenas no processo evolutivo das crias como também no próprio, facilitando o corajoso desafio rumo à resignificação da criança interna que trazem em si.
Psicóloga - Ana Virgína Almeida Queiroz - CRP: 01-7250
Existe uma linha tênue entre o discernimento quanto à importância dos limites e sua prática. O saber pode ser definido como um processo que envolve um conhecimento empírico somado às inúmeras informações que recebemos acerca de um determinado assunto. A prática vai além disso, pois engloba a capacidade do indivíduo de exteriorizar por intermédio dos comportamentos o que aprendeu. Normalmente, é um processo difícil por envolver condições emocionais limitadoras, ou seja, adultos que têm a exata noção do que precisa ser feito, podem não dar conta de realizá-lo em razão dessas questões restritivas.
Como exemplo, podemos citar o efeito devastador do sentimento de culpa no tocante à educação dos filhos. Muitos pais se tornam reféns dos desejos intermináveis da prole, regados aos apelos publicitários na tentativa nociva de compensar sensações negativas neles mesmos. E as razões para se “penitenciarem” são inúmeras, como ausência física em razão da profissão, tentativa de evitar que o filho seja marginalizado por não possuir um determinado produto, enfim, a prevalência da cultura do TER em detrimento do SER em boa parte das famílias da atualidade.
Quando e como começa a educação financeira
A educação como um todo, deve envolver, primordialmente, a coerência entre o que é dito e o que é praticado, e para tanto não há idade, mesmo em se tratando do dinheiro. Um bebê não tem discernimento sobre o objeto em questão, mas já é capaz de perceber e internalizar o sistema de crenças, bem como as atitudes dos pais.
Momentos lúdicos envolvendo atividades de troca desde tenra idade podem introduzir conceitos simples sobre o valor das coisas. No que se refere ao dinheiro, propriamente dito, a mesada ou semanada podem ser muito eficazes no tocante ao manuseio do recurso financeiro e o momento mais adequado é quando a criança começa a desenvolver aptidões para as operações de somar e subtrair, entre 5 e 6 anos. O valor pode ser estabelecido de acordo com a idade da criança, aumentando a cada aniversário.
É importante que a criança vincule a mesada à idéia de mérito e isso deve ser explicado a ela. Para receber é necessário que a associe a pequenas responsabilidades, como não deixar brinquedos ou roupas espalhados, por exemplo. Isso introduzirá, para o futuro, a noção sobre salário. Mas atenção quanto a não vinculação da mesada a questões escolares (notas, tarefas, trabalhos). Estudo é obrigação, portanto não deve fazer parte de negociações.
O estabelecimento de metas para poupar também auxilia no tocante à educação financeira. A criança precisa saber com o que ela gostaria de gastar seu dinheiro e, portanto, por quanto tempo deverá poupar para adquirir o que deseja. Ao atingir seu objetivo, o adulto poderá pontuar sobre como a mesma se sentiu com a experiência de poupar para finalmente comprar o que almejava.
Outro aspecto importante é o envolvimento das crianças no momento da elaboração da lista de compras e também em sua execução. Muitos adultos não apreciam levar os filhos ao supermercado e deixam passar a oportunidade de ensinar, na prática, questões sobre o que verdadeiramente é necessário ou não. Reflexões como: “Esse produto é realmente importante e saudável?”, “Você pode escolher entre esse ou aquele, mas não os dois”, “Por que você quer comprar isso?”, “Veja, esse é semelhante aquele e mais caro apenas por causa da marca.” entre outras, possibilitam o desenvolvimento de um discernimento a respeito do que realmente é importante a criança levar para casa e para a vida.
Auto-observação como solução
A relação ensino-aprendizagem não se estabelece apenas em função de objetos que deliberadamente quem que se coloca na condição de educador pretende explorar, mas de igual modo e especialmente daqueles que decorrem de suas atitudes e comportamentos, para cujo resultado concorrem os conteúdos psíquicos do adulto (sentimentos, traumas, crenças, valores).
Faz-se necessário o exercício da auto-observação quanto à forma de se relacionar com o dinheiro para que os ajustes aconteçam, primeiramente nos pais. Uma postura leviana ou de desperdício em relação aos recursos disponíveis – e nesse aspecto importa reconhecer que independe o estrato social em que se situe quem a adota – induzirá fortemente uma tendência à leviandade e ao desperdício.
Para que resultados mais consistentes se produzam, deve-se buscar as origens das necessidades que mobilizam o abuso ou o emprego desarrazoado do dinheiro, as mais das vezes relacionadas com o impulso de completar uma lacuna emocional, raramente preenchida.
Não há dúvidas sobre a importância e influência dos pais na primeira
infância de um indivíduo, no que se refere, principalmente, à formação de seu
caráter, bem como na organização de uma estrutura psicoafetiva, definidora da
maneira como este perceberá e organizará ações e reações na sociedade.
Estádio do Morumbi – São Paulo, 1º de abril de 2012
Roger Waters, 69 anos, nos presenteia com o clássico The Wall, uma temática muito mais do que
atual. Setenta mil corações respondem aos apelos das melodias e dos sons
reproduzindo tormentosos momentos bélicos. Bombas, tiros de metralhadoras e até
mesmo um avião em queda explodindo no palco promoviam sensações de opressão e
ansiedade na plateia. Tudo perfeitamente arquitetado, objetivando uma tomada de
consciência pelo público.
A obra em questão retrata a história de vida do artista.
Filho da Segunda Guerra Mundial, órfão de pai, criado por uma mãe super protetora, fruto de
um sistema educacional precário e repressor, geram um perfil humano depressivo,
resguardando-se entre os tijolos que compunham a defesa construída ao logo de
sua existência, atrás da qual sentimentos de solidão, medo e vazio são cuidadosamente
interpretados por Waters e pelas cirúrgicas projeções no muro que se erguia ao
longo do espetáculo.
Inevitável remeter à atualidade. Educação e Psicologia
avançaram e a consciência sobre os danos da repressão na formação de nossas
crianças já é, para muitas pessoas, ponto indiscutível. Abstraindo os casos de
maus tratos e outras situações extremas, percebem-se pais preocupados em
favorecer uma vida farta de “alegrias” à prole. No entanto, o mais importante, ainda
está para ser despertado; a satisfação em simplesmente SER, observando-se as
reais necessidades nas crianças, especialmente as afetivas.
Essa omissão de observância não começou agora e é alterada
em sua forma de apresentação a cada nova geração, de modo a garantir o
prolongamento e a sedimentação da alienação existencial nas famílias e, consequentemente,
na sociedade. Boa parte das pessoas está doente, carente e ausente de si mesma.
Não foram treinadas quanto à prática da auto-observação, por intermédio do
reconhecimento dos próprios sentimentos, tampouco no que tange à capacidade de desenvolver
a autonomia emocional, buscando sempre fora a satisfação de seus anseios.
Surgem as compulsões de toda natureza, na tentativa de preencher lacunas
internas e encobrir relações fundamentadas em falsas expectativas, na frenética
negação da própria dor e na delegação a outrem do poder de proporcionar felicidade
plena.
A transferência da responsabilidade para fora de si é
constantemente ilustrada nos casamentos, nos relacionamentos entre pais e
filhos e por que não dizer na escolha dos nossos governantes. Compomos uma
sociedade com um perfil depressivo, onde a maioria alimenta o sonho de dias
melhores, sem promover grandes esforços na parte que lhes compete, postura que
provoca adiante um padrão de vitimização.
Aquietam-se, acomodam-se, calam e sonham, vivendo nos quatro
cantos do país de esperanças em troca de migalhas, do suor das frustrações e
dos calos nos dedos provocados pela mudança de canais na televisão. É a busca
incessante pelo alto padrão de vida, pela sobrevivência e aceitação na
sociedade. Como, então, exigir do cidadão médio mais critério na escolha de seus representantes? As justificativas são inúmeras, envolvendo a deficiência da Educação, bem como a má distribuição de renda e consequentemente o enriquecimento ilícito dos governantes. Mas é a população desprovida de discernimento, critério e senso crítico quem escolhe os representantes. Essa, regada a inúmeras compulsões, a programas televisivos abusivos e reforçadores da mediocridade.
E, assim, a perversidade humana se elege, compondo um enlace
perfeito entre padrões depressivos e psicopatas. Um quadro de textura profunda,
de raízes íntimas que se refletem no social. O sistema educacional, tão
somente, não mudará essa realidade. A família precisa rever valores e
reinvertê-los, promover nos filhos habilidades no tocante à autodefesa
emocional, conscientizá-los sobre o valor do trabalho, as desvantagens em se
“tirar vantagem” e a rejeição intransigente de todo e qualquer tipo de abuso.
Necessita-se de crianças e jovens mais colaborativos, menos
isolados nos muros cibernéticos da tecnologia, que interajam com a família, com
os grupos, desenvolvendo, assim, habilidades no lidar com o outro. Futuros
adultos que se deleitem com as obras literárias, instigadoras da imaginação e da
sensibilidade. Que brinquem, descobrindo os limites do próprio corpo e do
espaço dos que compartilham dos mesmos momentos lúdicos.
Precisa-se para tanto de pais, educadores e cuidadores mais
capacitados em lidar com os próprios recalques, garantidores da fluidez da
autenticidade infantil, conscientes da vaidade e da ameaça que saltam de seus
inconscientes em vista das próprias necessidades afetivas mobilizadas a partir
do convívio com uma criança. Adultos mais tolerantes aos apelos da culpa que os
torna reféns, cedendo às invasões publicitárias na busca da compensação pelas
suas limitações humanas.
The Wall não é uma
ficção e está perfeitamente contextualizada. Não somos filhos da Segunda Guerra
Mundial, mas dos apelos consumistas, incentivadores do carrasco verbo TER para
então tentarmos SER. Derrubemos o muro! Mas o façamos primeiramente dentro de
nós, para que, mais inteiros, rompamos os grilhões que nos escravizam à própria
falta de atitude e, feitos homens e mulheres livres, sejamos capazes de formar
cidadãos mais conscientes emocional e politicamente, cuja postura diante da
vida se revele suficientemente poderosa para operar uma transformação
consistente na direção do fortalecimento de uma consciência coletiva verdadeiramente
justa e humanizada.
Eu tenho um pequeno livro preto com meus poemas Tenho uma bolsa com uma escova de dente e um pente dentro Quando eu sou um bom cachorro as vezes eles me jogam um osso Tenho elásticos mantendo meus sapatos amarrados Tenho aquelas inchadas mãos azuis Tenho treze canais de merda na TV para escolher Eu tenho luz elétrica E eu tenho intuição Eu tenho incríveis poderes de observação E isto é o que eu sei Quando eu tentar conversar No telefone com você Não haverá ninguém em casa Eu tenho o obrigatório permanente* de Hendrix E eu tenho as inevitáveis queimaduras de agulha Bem à frente da minha camisa de cetim favorita Eu tenho manchas de nicotina nos meus dedos Eu tenho uma colher prateada numa corrente Eu tenho um grande piano para escorar meus restos mortais Eu tenho brilhantes olhos selvagens Eu tenho um forte desejo de voar Mas eu não tenho para onde ir Ooooh Baby quando eu pegar o telefone Ainda assim não haverá ninguém em casa Eu tenho um par de botas Gohills E eu tenho raízes enfraquecidas.
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